Hermann & Greg
Uma dupla inesquecível. Michel Régnier (1931 – 1999), conhecido como Greg, era o mestre do storytelling que as bonitas pranchas de Hermann Huppen (1938 – 2026) complementava. Hermann faleceu no passado domingo, 22 de Março.
A série Comanche (1969) foi do melhor que Hermann (desenho) e Greg (argumento) criaram. Começa com Red Dust (1972) editado pela Lombard e cá, em 1978, pela Bertrand. É um western realista que fascinou um miúdo de nove anos na altura. Greenstone Falls é dominada por pistoleiros, como Wally Hondo ou Kentucky Kid, contratados por um testa-de-ferro Larry Cathrell, que obedece a alguém mais poderoso. Neste primeiro álbum são apresentadas as fascinantes personagens: o velho capataz Ten Gallons, “Tenderfoot” Clem, Toby e, claro, o herói, o solitário pistoleiro Red Dust e a dona do rancho Triple Six (666) Comanche, que dá nome à série. Os largos planos das pranchas com imensos detalhes são soberbos e a história, parecendo comum, está cheia de suspense, twists e todo um épico simbolismo que vai do cavalo palomino às pradarias do Wyoming. Tudo é sugestão e originalidade, o cavalo não é um alazão ou um baio, é um palomino, e a acção não decorre no Texas ou no Arizona, é no Wyoming. Red Dust é ruivo e usa um coldre com dois revólveres ao contrário com as coronhas viradas para a frente.
No segundo álbum, Os Guerreiros do Desespero (Lombard, 1973, Bertrand 1979), o decrépito rancho Triple-Six continua a reerguer-se, com o aparecimento de novas e pitorescas personagens como o bêbedo garimpeiro Pharaon Colorado e recupera outras como o traiçoeiro veterinário Doc Wetchin. Não pode haver um bom western sem índios e é aqui que aparecem pela primeira vez os cheyennes, os filhos do chefe Três-Cajados têm personalidades muito diferentes: Cavalo-de-Pé, mais velho e mais sereno, Fogo-Solitário, mais irascível, e o mais novo e menos afortunado Mancha-de-Lua que vai desempenhar um papel dramático no enredo que o ligará para sempre ao Triple-Six. Os planos cimeiros desenhados nas pranchas são, como sempre, extraordinários, mas a tradução do Francês peca muito por defeito. Eram os anos setenta.
No terceiro álbum, em Os Lobos de Wyoming (Lombard, 1974, Bertrand, 1980), de Comanche, é recuperada a personagem do cocheiro da diligência, Sid Bullock, e surge um misterioso reverendo-pistoleiro, Brian Braggshaw, que vai superiorizar-se ao herói da série, Red Dust, ao sacar mais rápido num duelo entre ambos, mas a rivalidade forjará uma fraterna amizade que servirá de vingança para aniquilar os verdadeiros bandidos que são essa maliciosa família de selvagens outlaws, os cinco irmãos Dobbs, cuja malvadez e crueldade não tem limites e que dará origem ao encadeamento da história num próximo álbum.
O quarto álbum, O Céu Está Vermelho Sobre Laramie (Lombard, 1975, Bertrand, 1981), já mais caro, custou 270$00 (~1,35€), de Comanche, Red continua no encalce de Dobbs, que semeia mortes por onde passa, para vingar Braggshaw usando a arma do defunto, o Colt de prata Rim Fire, calibre 38 de 1862. E conhece os passageiros da diligência de Sid Bullock, o pugilista Cavendish, o jovem pistoleiro de circo Shaver Sharp e o negociante de armas Amos J. Coogan. Dobbs tem como parceiro o já conhecido Doc Wetchin. O duelo não terá nobreza e Red Dust resigna-se a pagar por isso.
“Fúria Rebelde” (Lombard, 1976, Bertrand 1977), de Comanche é o sexto álbum da série e infelizmente o último editado pela Bertrand que o fazia, apesar de tudo, de forma pouco sequencial. No meio há a lacuna de O Deserto Sem Luz (Lombard, 1976). Red Dust é delegado do xerife de Greenstone Falls e vai reencontrar o renegado cheyenne Fogo-Solitário, uma suposta traição de Mancha-de-Lua e a justiça fraterna de Cavalo-de-Pé. Pelo meio surge um extravagante fotógrafo, Dan Morgan. A partir deste álbum as edições passam para a Distri Editora em Portugal, a 350$00, mas o original continua na Lombard.
Em O Dedo do Diabo (Lombard, 1977, Distri Editora, ?), no sétimo álbum de Comanche, Red Dust abandona Greenstone Falls para fugir do progresso e é no Montana que vai reviver a sua aventura inicial, desta vez ajudando o rancheiro e ex-pistoleiro Joseph Duncan, ou melhor, Jed Dexter, “Devil’s Finger”, e a filha Patricia Duncan, a lutar contra pistoleiros como o famoso Dan Wallach, Spade e o jovem Gus Gilhooley que trabalham para uma sociedade mineira de exploração de cobre que pretende comprar as terras à força da lei APEX de Augustus Heinze.
Em E o Diabo Gritou de Alegria… (Lombard, 1981, Distri Editora, ?), Red Dust regressa a Greenstone Falls, ao Wyoming, depois de ter abandonado o Montana, o motivo terá sido revelado no oitavo álbum, Os Xerifes (Lombard, 1980), não editado em Portugal, e regozija-se pelo progresso não ser assim tanto, como se preparava aquando da sua partida. Ao chegar, desconfia de imediato de um agente de seguros, Addison de Vega, e a coincidência de vários incêndios em ranchos da região, mas será Mancha-de-Lua(r) que terá o protagonismo de descobrir a verdade.
O Corpo de Algernon Brown (Lombard, 1984, Distri Editora, ?), é o décimo e último com o traço de Hermann e da edição Lombard de Comanche. A partir daí, o traço de Michel Rouge na editora Dargaud, nos anos 90, nunca o conseguiu igualar. Nesta aventura, Red Dust regressa a Laramie, onde matou Russ Dobbs, e reencontra também “Bombardeiro” Cavendish. E o plot é sobre uma interessante troca de identidades e uma doença mental provocada por um trauma.
Nem Bernard Prince ou Jeremiah, ambos também de Hermann e Greg, Michel Vaillant, Dan Cooper, Luc Orient, Bruno Brazil, Blueberry ou Blake & Mortimer igualaram a magia deste western realista onde o traço e o detalhe nas pranchas e a originalidade do storytelling fizeram sonhar tantas crianças. Assim tão carismático só mesmo Corto Maltese de Hugo Pratt, mas, lá está, não é um western.









