De profundis
Ele já era acusado na infância e adolescência de ter pouca ambição, não era muito competitivo, tinha capacidade para mais mas nunca ia além do bom, ora, desde que tinha sofrido grandes humilhações no trabalho no passado recente, qualquer pequeno desaire afectava-o profundamente. Cada frase mal proferida numa banal conversa era um Kilimanjaro de má consciência. Cada derrota num efémero jogo de xadrez era um Zugspitze de frustração. A sorte em competição nunca lhe havia sorrido e isso manteve-o sempre resignado quanto ao risco. Sempre foi perfeccionista por escolha e sobrevivência. Ele sabia que, posto à prova, nunca podia ir ao acaso, tinha de ir altamente preparado, caso contrário, a derrota exponenciava-lhe a insegurança que as décadas lhe haviam trazido. A injustiça daqueles anos nunca foi alvo de reparações, mas antes o agravo da gratuitidade da humilhação. E a constatação do sucesso da maldade levou-o a pensar sobre a virtude da decência. Seria, como alguém disse, que era pior o arrependimento de nunca ter pecado?

